Não sou nenhum especialista em marketing, mas essa história do terceiro uniforme do Corinthians, que traz a camisa roxa, está virando um case. Seja lá quem teve a idéia, acertou. Na Europa esse tipo de ação é praticada há bastante tempo e com sucesso. Todos os grandes clubes europeus fazem dinheiro anualmente com uniformes alternativos ou comemorativos. Isso representa mais uma fonte de receita na linha de licenciados. E lá, ao contrário do que normalmente acontece por aqui, sabe-se ganhar dinheiro com produtos licenciados.
No Brasil, o mercado de licenciamentos na área esportiva é uma piada, se observarmos o potencial e a importância do esporte em nossa cultura. Como em qualquer mercado competitivo, é preciso haver profissionalismo. Não trabalho com futebol, mas estou certo que nas discussões sobre licenciamentos dentro dos clubes deve-se empregar boa parte do tempo negociando ganhos, porcentagens. Quanto "eu" vou ganhar com isso? 15%, 18%, 20%? Isso é detalhe! Só se ganha dinheiro se o torcedor for até a loja e comprar o produto. Simples! A primeira coisa a ser discutida num acordo envolvendo marcas e produtos é o que o licenciado fará, ou o quanto ele gastará em divulgação, esforço de vendas e distribuição. O royalty é importante, mas não pode ser o foco inicial. A capacidade de gerar vendas, sim. A Nike sabe disso.
No final de semana "roxo" estive em dois grandes shoppings de São Paulo e percebi que as vitrines de todas as principais lojas de esporte destacavam o novo uniforme. E com capricho, incluindo um fundo roxo, chamando bastante a atenção. Até minha esposa, corinthiana-não-praticante, demonstrou um certo interesse na novidade. As blitze nas lojas e a boa exposição, que incluiu até ações promocinais em rádios qualificadas, funcionaram.
Na página do Corinthians dentro do Globo.com, o tradicional fundo preto foi substituído pelo roxo, com direito a um pop-up destacando a camisa. A Nike tratou de abastecer as lojas com a sua tipologia oficial para que os torcedores pudessem personalizar suas camisas. Claro, se o foco é o "torcedor roxo", nada mais justo que ele estampasse seu nome na camisa. Trabalharam bem.
Obviamente que o grande momento, o ápice de toda essa ação, inédita na história do Corinthians e extremamente saudável para o futebol, seria a aparição do elenco titular no Morumbi e a estréia oficial da camisa roxa. E cagaram justamente na parte mais fácil. E não foi uma cagada só!
Confesso que não havia visto a entrada do Corinthians no gramado. Como peguei o jogo com bola rolando, busquei a imagem agora na internet, antes de escrever esse post, e não acreditei: a tal camisa roxa ficou azul! Posso estar até enganado, mas revi a imagem algumas vezes e, para mim, continua parecendo azul. Está disponível na página de vídeos do Globo.com.
Quem está acostumado a ver Fórmula 1, e já assistiu a prova ao vivo, irá concordar comigo:
As cores da famosa McLaren "caixinha de Marlboro" que consagrou Ayrton Senna, quando vistas ao vivo, eram claramente diferentes. O vermelho parecia quase rosa. Mas o resultado era perfeito na transmissão. O mesmo vale para o indefectível vermelho da Ferrari que, ao vivo, é um "vermelho-alaranjado". Isso acontece porque as cores variam um pouco quando são filmadas. Dependendo da luz, podem variar bastante! E as grandes empresas, aquelas que gastam milhões para cuidar da exposição de suas marcas, fazem testes diversos até que se chegue no resultado correto. O Palmeiras já teve problemas com o verde de sua camisa anos atrás, exatamente pelo mesmo descuido. Na NBA, por exemplo, as camisas que os torcedores compram nas lojas, mesmo sendo oficiais, não têm os mesmos matizes daquelas que são usadas nas quadras. Uma coisa é a exposição na loja. Outra é a exposição numa quadra estupidamente iluminada, com captação de imagens em alta qualidade.
Mas voltando ao gramado do Morumbi...
Os jogadores, nitidamente pouco à vontade com a camisa roxa, livraram-se dela tão logo entraram em campo. Pode-se dizer o que quiser, arrumar qualquer desculpa, mas aquilo não era o combinado. Não faz qualquer sentido. Está claro que a pressão da principal torcida organizada do Corinthians, venceu o planejamento. Jogar a camisa para a torcida soou como um golpe nos torcedores que gastaram dinheiro e queriam ver a novidade em campo. Foi o chamado "truque". E quem, agora, irá até a loja para gastar seu dinheiro numa camisa que nem o clube está convecido a usar? Quanto vai se perder com isso?
O Departamento de Marketing do Corinthians deve estar feliz da vida com o presidente Andrés Sanchez. O da Nike então...
Fizeram (quase) tudo certo. Só esqueceram de pedir a autorização para a Gaviões...






