quinta-feira, 10 de abril de 2008

O monstro dos jornais


Aqui no Brasil costumamos dizer que não respeitamos nossa história, não valorizamos nossos ídolos como, por exemplo, os americanos com suas "Hall Of Fame", números de camisa aposentados e homenagens intermináveis. Até é verdade, mesmo. Talvez seja uma herança da colonização portuguesa, com seu foco meramente extrativista, onde tudo por aqui era provisório. Pode ser, mas quando algumas coisas acontecem em outros países de histórico distinto, as teorias se desfazem.

Não tem muito tempo o craque Rivaldo era o ídolo maior do poderoso Barcelona. De uma hora para outra, a imprensa começou a culpá-lo pelas derrotas, a diretoria começou a reclamar abertamente do craque, induzindo a torcida a vê-lo como um problema. Foi execrado e vendido. Hoje, no AEK da Grécia, Rivaldo vê o mesmo filme, só que desta vez à distância. "Estão fritando o Ronaldinho!". Palavras dele.

O Gaúcho é o maior ídolo do clube catalão (ou era), conquistou dezenas de títulos com a camisa do Barça e era tido como um quase deus. Na temporada passada o Barcelona perdeu para o Real Madrid um campeonato da Liga Espanhola que não deveria perder, já que liderava com folga, depois perdeu o Mundial Interclubes para o Inter de Porto Alegre, e já quase não tem chances de reverter o quadro atual do Espanhol. Faltando sete rodadas, está sete pontos atrás do Real Madrid. E de quem é a culpa? Do Ronaldinho! O time não faz gol, de quem é a culpa? Do Ronaldinho. Aparece uma lista de jogadores contundidos, e quem não está na lista? Ronaldinho, mas também não joga. O técnico Frank Rijkard (craque de bola no seu tempo), é um treinador sofrível, e consegue armar mal um time que tem Messi, Etoo, Henry e muito mais. E de quem é a culpa? Do Ronaldinho. É o preço de ser ídolo. Mas é só no dele?

O que chama a atenção é a campanha empreendida para "queimar o filme" do gaúcho. Já apareceram notícias de noitadas (nunca tinha ouvido falar disso com ele), faltas aos treinos, falta de empenho nos jogos e muito mais. A imprensa publica tudo, e ainda aumenta quando dá. Está claro que é uma campanha para vender o craque brasileiro. O motivo pode ser o fato de que o Barça tem outros craques no plantel, pode ser por acharem que ele já deu o que tinha de dar, ou porque estão precisando de dinheiro (sendo o Barcelona, esta hipótese é difícil). A torcida já comprou o discurso da diretoria e não cansa de vaiar o jogador. Apagaram o ídolo e o tratam com enorme falta de respeito.

O Milan (patrocinado pela Adidas) ofereceu 20 milhões de Euros para ter Ronaldinho, mas a Nike (patrocinadora pessoal do Ronaldo) prefere a Inter de Milão (patrocinado pela Nike). A negociação segue, o irmão Assis, empresário de Ronaldinho já fala em pagar a pesada multa e ir embora. O único fato definitivo é que Ronaldinho Gaúcho não estará no Barcelona na temporada 2008/2009. Acabou seu tempo por lá.

Mas deve haver algo na história da Espanha que a faz lembrar o Brasil no quesito memória curta. O Real Madrid resolveu fazer o mesmo com Robinho! Até outro dia era tido como inegociável, blindado e ídolo do time merengue. De algumas semanas para cá, Robinho não joga (como Ronaldinho), quando muito fica no banco (como Ronaldinho), a imprensa não se cansa de falar em contusões que não existem, noitadas, falta de dedicação nos treinos.... não parece o mesmo filme?? Os pouco criativos espanhóis da capital e da Catalunha só têm uma diferença: o Real alega que precisa de dinheiro. O técnico do Real, Bernd Schuster, diz que não pode abrir mão do "rei das pedaladas", mas a diretoria já disse que não rola. Deve parar no Chelsea ou no Milan (daqui a pouco o Milan vai jogar de camisa amarela e calção azul).

Nada contra a compra e venda de atletas, mesmo que sendo grandes ídolos, faz parte do negócio. Ganhar salários milionários também aumenta sua responsabilidade e as cobranças sobre seu rendimento e comportamento (mesmo fora dos gramados), coisa que alguns ainda não entenderam, né Adriano? Mas evitar um confronto com a torcida criando um monstro pela imprensa me parece covarde e desleal. Rivaldo, Ronaldinho, Robinho... outros virão. É parte do jogo, infelizmente. Ainda que Barcelona e Real Madrid não precisem disso. Suas histórias são maiores que seus ídolos.

HELENO DE FREITAS

4 comentários:

Anônimo disse...

Parabens pelo texto! Nada a acrescentar.
Ilma.

Cláudia disse...

Para piorar, os três são negros ou mulatos, o que reforça o preconceito reinante de que negros são indolentes, preguiçosos, pouco comprometidos, pouco inteligentes e pouco dedicados.

Numa Europa cada vez mais tomada pela xenofobia, em que a aparente falta de fronteiras nacionais reforça cada vez mais o sentimento bairrista de cada país - e o apego ao time de futebol é um dos pontos de referência mais fortes em alguns setores sociais -, não é de se admirar que a imprensa tome esse tipo de atitude em relação aos jogadores.

E depois de fomentarem a revolta da torcida, posa de moralista quando os torcedores imitam macacos e fazem saudações nazistas nos estádios a cada aparição desses jogadores.

Cadê a coerência?

De resto, só tenho a dizer que seus textos são cada vez mais bacanas!

beijo

Anônimo disse...

Esse é o preço a pagar quando se celebra contratos que rendem 8,9 milhões de euros por temporada "só de salários", além de outros rendimentos extra campo.

O jogador tem que ser profissional na hora de exigir e receber essa quantia, mas também tem que ser na preservação da imagem, na forma física, na motivação, em não se expor à toa, em render o esperado (estão pagando por isso!).

A verdade é que a cobrança é proporcional ao que se paga. Vejo muito jogador com pouca ou nenhuma estrutura psicológica para lidar com isso corretamente. O jogador disputa 4, 5 temporadas ganhando mais de 10 milhões de euros/ano (total), conquista todos os títulos possíveis e aí se vê, com 25 anos, trilhardário, campeão de tudo e pensa : "já ganhei tudo dentro e fora de campo; e a vida? vou curtir, aproveitar, fazer tudo o que sonho e acaba deixando o futebol e o time em segundo plano" Imaginem a tentação de um garoto de 25 anos, que veio da favela, com algumas dezenas de milhões de euros na conta, famoso, idolotrado, mulherada, tendo que dormir cedo para treinar no frio no dia seguinte porque tem que jogar contra o Getafe no domingo, válido pela terceira rodada....tem que ser muito centrado, com boa estrutura, para se manter focado e render por muito tempo sem oscilar.

Vejam o kaká: porque com ele não acontece o mesmo? Pq sabe administrar, tem uma estrutura e uma cabeça diferente. Foi moldado para isso.

Não acho que os clubes queiram deliberadamente negociar/queimar o jogador e façam isso de propósito, até pq não faz sentido! jogador é ativo!se quisessem negociá-los, teriam que VALORIZÁ-LOS. Desmerecer, criticar e afastar são atos que desvalorizam e prejudicam qq negociação. Se isso está ocorrendo, acredito que algo de errado está realmente acontecendo, em que pese o sensacionalismo da imprensa.

Marcelo SV

Anônimo disse...

Marcelo SV, concordamos que um ativo sendo desvalorizado deliberadamente nao é um bom negocio. Mas o maior ativo de um clube como o Barcelona, especialmente, sao os seus associados/torcedores. Eles pagam a conta e precisam concordar com o que acontece na gestao do clube. Justificar a venda de um atleta querido pelos associados é missao quase impossivel, a menos que seja "publico e notorio" que ele nao se encaixa no perfil, na historia do clube e bla, bla, bla.

É ai que entra a imprensa. Membros de conselhos de administracao de grandes empresas em qualquer ramo de atividade passam pelo mesmo. Prejuizo agora, para administrar do seu jeito depois. Pratica corriqueira no universo corporativo, sem a exposicao que envolve um idolo do futebol.

O futebol se profissionalizou. Todos queriamos assim. Que se assumam as boas e as mas praticas inerentes `a administracao do patrimonio anonimo. Nem vou falar da paixao envolvida.... Encrenca!!! Ciar um monstro é bem mais facil.

Heleno.