segunda-feira, 24 de março de 2008

Os predestinados...


Confesso que não acredito muito em destino, aquela coisa fatalista, definitiva e contra a qual não há nada que você possa fazer. Mas também confesso que, às vezes, fico meio em dúvida.

Na semana passada tive o prazer de conhecer e conversar por longo tempo com um destes predestinados. João Roberto Basílio, o "Basílio" do Corinthians. Aquele, mesmo, que tirou o timão da fila de 22 anos, com um gol contra a Ponte Preta. O gol todo mundo já viu milhares de vezes, pela importância de ter tirado um grande clube da longa espera por um título, e depois pela dificuldade. Ô coisa chorada!!

Eram 36 minutos do segundo tempo do terceiro jogo da final Paulista de 1977. Sem desmerecer o Basílio, no campo estavam Zé Maria, Oscar, Carlos (goleiro né), Wladimir, Palhinha (todos eles jogadores da seleção brasileira), e a bola sobrou para o Basílio. Um a zero e o título tão esperado. Claro que falamos sobre isso em nossa conversa, mas falamos de muito mais. Uma pessoa educada, gentil e muito inteligente, fiquei impressionado com a classe do Basílio. Só para esclarecer a questão do "predestinado", o Basílio jogou 253 jogos pelo alvinegro paulistano e marcou apenas 29 gols! Um deles foi aquele. Pra sempre na história do Corinthians.

Quer outro exemplo? O recorde de partidas invictas no futebol brasileiro é de 52 jogos. Está dividido entre Botafogo (78/79) e Flamengo (79/80). Em pleno Maracanã o Botafogo perdeu e invencibilidade para o Gremio (RS) por 3 x 2, com dois gols de um cidadão chamado Renato Sá. Por sua atuação nesta partida, o jogador foi contratado pelo próprio Botafogo. Quis o destino que o Flamengo, após 52 partidas sem derrotas, jogasse com o próprio Botafogo! Resultado final: 1 x 0 para o Botafogo contra o Flamengo de Zico. Gol de quem? Isso...Renato Sá!!! O carrasco dos invictos desapareceu sem deixar rastro. Predestinado.

Poderia falar do Paolo Rossi, da selação italiana. Pouca gente lembra que ele jogou contra o Brasil na Copa do Mundo de 78 e perdeu. Ñao fez nada.... já o Nelinho! Quatro anos depois o Paolo Rossi eliminou uma das melhores seleções nacionais de todos os tempos (segundo a FIFA), com tres gols. Ficou marcado para sempre. Mais um predestinado.

Mas existem casos que reforçam a minha tese de que não existe destino. Vanderley Luxemburgo tirou o Palmeiras de uma fila de 16 anos sem títulos, montando um timaço em 1993. Foi bi-campeão paulista em 94, fora o bi Brasileiro. E lá se vão quase 9 anos sem títulos do verdão, e eis que o Luxa retorna. Após algumas partidas já ficou claro. Com um planejamento muito bem feito, altos investimentos e o talento incontestável do Vanderley, para mim o melhor técnico do país, o Palmeiras é o favorito ao título paulista. Isso não é fruto de coincidência, mas fruto de qualidade e talento, mesmo. Lá vai ele acabar com o jejum verde. E ainda vai ter gente dizendo que foi o destino...

HELENO DE FREITAS

4 comentários:

Anônimo disse...

Dentre a turma dos predestinados, faço questão de incluir dois:

Galeano, um volante esforçado (e só) que marcou época no Palmeiras e que praticamente não sabia o que era marcar gols. No entanto, na semi-final da Libertadores 2000, num lance de raro oportunismo, fez o gol da vitória do Palmeiras sobre o Corinthians e que levou a partida pros pênaltis. O Palmeiras eliminou o Corinthians quando o Marcos defendeu o chute do Marcelinho Carioca. Tudo graças ao Galeano!

Outro que merece destaque na lista: Belletti. Um lateral meia-boca que, quando jogava no Barcelona, entrou do segundo tempo da final da Champions League 2005/2006 (contra o Arsenal) e, com apenas 5 minutos em campo, fez o gol da virada e do título aos 36 minutos.Está na história do Barça.

Impressionante esses predestinados...

Anônimo disse...

Normalmente os jogadores tachados de predestinados, são aqueles com pouco talento que acabam fazendo um gol (ou uma defesa) decisiva. Isso porque os craques decidem sempre, assinalam vários gols importantes. Ninguém diria que o Zico é um predestinado, por exemplo, já que ele decidiu "trocentos" campeonatos pro Flamengo. Maradona fez inúmeros gols decisivos e nem por isso é tido como "predestinado". O mesmo vale para o Dinamite no Vasco, para o Pelé no Santos, etc.
Portanto, antes de mais nada, todo o predestinado é um jogador de mediano para baixo, sem muito o que contar de sua carreira, sem feitos. Por isso, entendo que a diferença não está no fato de ser o cara "certo na hora certa"; mas sim o fato de serem jogadores que não costumam fazer a diferença e quando o fazem isso acaba saltando aos olhos e o referido lance é geralmente "filho único" em suas carreiras.
alguns exemplos de supostos predestinados, que na minha opinião se destacaram mais pela ausência de outros bons momentos em suas carreiras do que por serem "predestinados":
1. Josimar na Copa de 86 - era um grosso, que acertou 2 chutes e nada mais em sua vida. Após o evento se destacou mais pelas drogas do que pelo futebol.
2. Cocada na final do carioca - deu um tíulo ao Vasco sobre o Flamengo, com um golaço. E só! nada mais a acrescentar em sua carreira.
3. Rondinelli, o Deus da raça - zagueiro truculento, que nada fez na vida além do gol que salvou uma geração de flamengistas. Apesar de ser endeusado, o fato é que não produziu nada em sua carreira além disso.
4. Galeano - como já foi dito em outro comentário, fez um gol e só de relevante em sua carreira.
5. Basílio - jogador de mediano para grosso, que fez um gol e só.
6. Viola - apareceu e no primeiro jogo profissional fez o gol do título paulista de 88 para o corinthians. Foi tachado de "predestinado" e até hoje, 20 anos depois, segue jogando sem ter feito nada muito significante no futebol.

Entendo que se um jogador joga em um time grande por 10, 15 anos, a chance de em algum lance da vida ele fazer algo para a posteridade é grande. Não é possível jogar 50, 60 partidas por ano, mutas delas históricas e nunca conseguir fazer nada de relevante, um gol importante. Tem que ser muito ruim...

Marcelo SV

Cláudia disse...

Sobre predestinados, nada a dizer, mas sobre destino, tudo. Eu acredito em destino, não na concepção ingênua de achar que não devo fazer nada e que tudo está escrito e ponto final. Mas na idéia de que as coisas se encaminham para uma determinada situação, fora do nosso planejamento, e que culmina em algo. Isso, para mim, é destino.
O jogador pode ter saído do clube a contragosto, assinado um contrato com outro porque não surgiu alternativa, e de repente faz um gol importante, decisivo. Isso é destino.
Mas destino é um assunto para muitas e muitas linhas...
beijo

Anônimo disse...

Marcelo SV, no post sobre os "predestinados" eu foquei naqueles que conquistaram feitos notáveis, mesmo sem reunir condições teóricas para isso (exceto o Luxa), mas existem "predestinados" ao contrário. O Zico, por exemplo. Um gênio da bola, parte de uma geração incrivelmente talentosa, e não foi campeão do Mundo pela Seleção Brasileira. Ficou de fora de uma lista que conta com Belletti e Viola, por exemplo. Foi o destino.... Abs.

Heleno.